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[RESENHA] Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas - Elvira Vigna | Companhia das Letras


Como Se Estivéssemos Em Palimpsesto de Putas - Elvira Vigna

Sinopse: 'Dois estranhos se encontram num verão escaldante no Rio de Janeiro. Ela é uma designer em busca de trabalho, ele foi contratado para informatizar uma editora moribunda. O acaso junta os protagonistas numa sala, onde dia após dia ele relata a ela seus encontros frequentes com prostitutas. Ela mais ouve do que fala, enquanto preenche na cabeça as lacunas daquela narrativa. Uma das grandes escritoras brasileiras da atualidade, Elvira Vigna parte desse esqueleto para criar um poderoso jogo literário de traições e insinuações, um livro sobre relacionamentos, poder, mentiras e imaginação.'

Quando fiz minhas metas literárias para 2017, algo que gritou em minha mente foi à necessidade de me aventurar por novos gêneros, conhecer novos autores, me desafiar como leitora. Por essa razão quando me deparei com a obra Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, não consegui resistir. Com uma capa interessante, uma sinopse intrigante, um título incomum e uma autora nacional reconhecida e premiada, a obra não poderia ser mais complexa e ainda assim despretensiosa. Não é de hoje que escuto falar de Elvira Vigna, mas até então jamais havia lido algo da mesma.

Não sei ao certo o que estava esperando encontrar, mas com certeza não era o que me foi apresentado. A narrativa de Elvira é algo muito particular, o modo como ela conduz a história, como se faz presente em cena, é algo único, confesso que não foi fácil me encontrar na leitura, mas a partir do momento que compreendi o que de fato estava sendo proposto tudo fluiu muito bem. É importante frisar que não tenho como hábito a leitura de obras com esse tipo de escrita – peço desculpas por minha ignorância, mas realmente não sei como descrever, nomear -, portanto tudo se tornou uma grande surpresa e descoberta. Talvez esse seja o motivo de tantas sensações contraditórias durante a leitura, confusão, dúvida, questionamentos, tédio, revolta, compreensão... Enfim, é o tipo de livro que somente lendo para compreender de fato.

João têm muitas histórias para contar e agora encontrou alguém para escutar. Contratado por uma editora que está falindo para informatizá-la, ele divide suas tardes insuportavelmente quentes com uma designer – A narradora sem nome -, pessoa essa com quem compartilha suas experiências e aventuras com prostitutas, ato que quando descoberto provocou o fim de seu casamento com Lola. Atitude essa que ele não compreende, João acredita que Lola está errada. E à medida que passa a recordar seus casos extraconjugais, passa também a reviver a história de seu casamento e a narradora que é uma espectadora, uma ouvinte de sua trajetória tenta de alguma forma preencher as lacunas deixadas por João, explicar aquilo que não tem explicação, compreender o porquê das traições, assim como o motivo que o leva a crer que a separação foi uma atitude errada por parte de Lola.

"João também desenhava. Por cima. E no ar, e com palavras. E nele mesmo. Uma garota de programa por cima de outra garota de programa, sem nunca individualizá-las, acabá-las, sempre faltando alguma coisa, calcando mais da próxima vez, quem sabe agora. Até a última."

Confesso, nunca havia escutado a palavra PALIMPSESTO e como boa curiosa que sou precisei pesquisar: Palimpsesto é uma espécie de pergaminho, papiro que foi raspado, apagado, para que se possa reescrever por cima. E é isso que a narradora faz ao longo da história, ela tenta reescrever, dar um novo olhar, criar uma nova escrita para o que João está nos contando. Eu sei, estou falando e falando e não dizendo nada. Mas é difícil falar da obra em si, sem soltar spoilers. O enredo em si é como um labirinto, como se estivéssemos brincando de esconde-esconde, onde se revela e se oculta, com diálogos curtos e frases diretas. Com um protagonista vazio, pobre de espírito, bobo, perdido em si e em suas escolhas, que desperta ainda que incompreensivamente afeição e repulsa na mesma proporção e do outro lado a narradora sem nome que mora com uma prostituta, que enxerga a si como invisível, “feinha”, que acaba por escutar as peripécias deste homem e tenta tapar os buracos deixados por ele, lançando ao leitor suposições, hipóteses, misturando a realidade com o não-realizado.

“Barulhinhos, ruídos. Um recado que chega, uma bobagem dessas. Não era para ser nada. As garotas, um ruído de fundo na vida de João. Ia apagar o recadinho naquele dia mesmo, ou no outro. As perguntas também, apagadas, ou quase. Passadas por cima, outras coisas por cima”.

Acredito que quando não se está bem com si mesmo, não importa o que aconteça, ou o que se faça, nada nunca será bom o suficiente ou satisfatório. É quando nos tornamos rascunhos, escrevemos e apagamos, tentamos concertar, fazer diferente, mas no final o resultado sempre acaba por ser o mesmo.

Gosto de pensar que a mensagem da autora ficou nas entrelinhas e principalmente que fui capaz de compreendê-las. Falando sobre machismo, traição, egoísmo, relações interpessoais... Como se estivéssemos em palimpsesto de putas é uma obra feita para se pensar, refletir, dar um tapa e te fazer acordar.

“Quando ela volta e precisa se transformar de não pessoa em pessoa, o processo é doloroso, íntimo. Põe Gael para brincar com alguma coisa. E começa. E é difícil. É difícil para ela limpar a maquiagem em frente ao espelho. O banho também é demorado e difícil. E uma vez que cheguei mais cedo do escritório de João, vi que ela simplesmente sentava no chão do chuveiro e deixava a água escorrer. Por horas.”

Acredito que a obra caiba bem para leitores mais “sofisticados”, acostumados com provocação da autora, que são capazes de ler nas entrelinhas, que enxergam os detalhes, que não se incomodam com jogadinhas, figuras de linguagem, densidade e crueza nas palavras. Pois apesar de ter gostado da leitura e dos desafios que ela me proporcionou, sinto que não a aproveitei ao máximo, justamente por não ser uma apreciadora do estilo da narrativa, ou por ser leiga demais, ter uma experiência limitada. Entretanto, ainda assim recomendo sim a leitura a todos que buscam desafios, que sinta a vontade ou necessidade de se aventurar pelo desconhecido, que almejem desvendar novos estilos literários.

Quanto a capa, diagramação e trabalho editorial, só posso deixar meus parabéns. Companhia das Letras fez um belo trabalho.

Ficha Técnica:
Literatura Nacional, Romance | Companhia das Letras | 2016 | 1° Edição | 216 Páginas | Cortesia | Classificação: 4/5 | SKOOB
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Até a próxima! Bye.

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